Domingo, 26 de Janeiro de 2020

Levantar de olhos (2011)

 

 

Escrevia as patetices do costume,

dedilhava o teclado ao sabor do que me vinha à cabeça,

textos, poesia, coisas diversas,

pelo rabinho do olho sinto uma sombra,

levanto a cabeça e deixo-a viajar até à janela,

e pelo vidro duplo de que é construída,

assisto ao espectáculo da natureza,

como se tivesse sido preparado só para meu deleite,

cai uma folha seca da árvore em frente,

cai outra e mais outra e,

neste corrupio de quedas, pasmo,

talvez uma rajadita de vento,

ou quem sabe o cansaço da espera de vez,

caem como flocos de neve,

seguidas e em quantidade espantosa.

O espectáculo da natureza em todo o seu esplendor.


publicado por canetadapoesia às 22:09
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Sábado, 25 de Janeiro de 2020

Entre o sol e a lua (2011)

 

 

No entanto, o sol nasce,

e, no entanto, a lua adormece-o,

entre ambos nos deslocamos,

e por eles trocamos humores,

também amores se manifestam,

os temores, no entanto, se espalham,

por entre a luz dos dias que nos consomem.

Na noite das luas cheias,

olhamos o céu e sonhamos,

que os dias não passam por nós,

pensamos até em outros sóis,

inexoravelmente, inevitavelmente,

segue-se o dia, sendo que,

mergulhamos no mesmo abismo.


publicado por canetadapoesia às 22:05
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Quinta-feira, 23 de Janeiro de 2020

Tocas-me (2020-01-15)

 

 

Tocas-me fundo na alma quando me lisonjeias,

com uma das primeiras palavras que o teu léxico,

recém criado,

debita em sonora dicção,

Avô!

Tão simples, tão pequenina e

tão vibrantemente expressa que me atordoa os ouvidos,

Avô!

Quase em simultâneo com as palavras essenciais

da vida que será tua,

Pai e Mãe!

Mas ouvir o som que emites a plenos pulmões e sem reservas,

Avô!

E sorris ao mesmo tempo, sem mais que dizer ou proferir,

Avô!

Que palavra mágica, saída da boca de um anjo.


publicado por canetadapoesia às 20:17
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Quarta-feira, 22 de Janeiro de 2020

Com tristeza (2011)

 

 

Passam por mim assim,

olhos baixos, cavados,

a tristeza expressa no rosto,

e aquelas faces que outrora,

foram coradas, saudáveis,

são agora uma máscara,

de um passado que não está longe,

mas que se teima em projectar,

num futuro assustador.


publicado por canetadapoesia às 22:16
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Terça-feira, 21 de Janeiro de 2020

Esperanças (2011)

 

 

Para a frente o poente,

que o que ficou atrás,

lá muito longe na caminhada,

foi um nascente de esperanças.


publicado por canetadapoesia às 23:15
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Segunda-feira, 20 de Janeiro de 2020

Em simultâneo (2011)

 

 

E se eu gosto de comer,

sentir o sabor de cada porçãozinha

que cuidadosamente coloco na boca,

a textura, a maciez, o sabor a terra ou a mar.

Está picante? Então é bom, faz bem ao coração,

dizem as línguas que soltas pelo vinho

me aconselham comummente a usá-lo,

esquecendo que desde pequenino o faço com prazer,

agora ainda lhe acrescento a pimenta,

que é uma homenagem aos navegadores

que em tempos que já lá vão,

na memória do esquecimento mergulhados,

passaram as passinhas do Algarve para no-la trazerem,

e eu, guloso e prazenteiro, aplico-a em doses generosas.

Mas a comida só sabe realmente bem

quando em boa companhia,

fazendo escorrer em simultâneo

o néctar que alegra a gula,

e a palavra que engrandece a alma.


publicado por canetadapoesia às 23:10
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Domingo, 19 de Janeiro de 2020

Vácuo (2011)

 

 

Olho-te sem te ver,

passas-me à frente e nem noto,

mas tenho de te ter ligada,

para fazer ruído, ou companhia,

debitas sons estranhos a meus ouvidos,

palavras soltas que nada me dizem e

verberas em discursos pomposos

de uns e outros ditos eruditos,

e eu nada, não te ligo nenhuma,

és um vácuo total na minha retina.

Na maior parte das vezes estás ligada,

e eu desligado de ti, sem te ver,

com estes olhos que vêem o mundo,

por um prisma muito diferente,

sem imagens distorcidas nem parangonas,

pelos livros que leio enquanto estás ligada,

e por isso, volta não volta levanto-me e

trás, catrapuz, desligo a televisão.


publicado por canetadapoesia às 22:01
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Sábado, 18 de Janeiro de 2020

Num lugar especial (2011)

 

 

Ali estava, num lugar especial,

sentado de frente para o mar,

na varanda de sua casa,

sua, porque a construiu ele,

com restos de outras casas,

com bocados de outras vidas,

mas esta era a sua e virada para o mar.

 

Acordava com o sol a entrar-lhe pela janela,

deitava-se com a luz que o luar,

sempre prazenteiro e sem receber nada em troca,

lhe depositava no que ele chamava os seus aposentos.

 

Não fora aquela inclinação agreste,

aquela estreita faixa de terra tão mal escorada

que de varanda lhe servia

e seria perfeita,

mesmo sem água corrente,

mesmo sem electricidade,

ainda assim era a sua casa.

 

E um dia chegaram uns senhores,

que não podia ser, que era impróprio,

ter uma casa na encosta,

virada ao mar e com uma vista destas,

nem sequer estava legalizada,

não pagava impostos nem água, nem luz.

 

Foi despejado, arrasada a casa.

No seu lugar, já com outras mordomias,

nasceu um condomínio privado,

onde pagavam tudo o que se exigia

nas sociedades modernas e bem-comportadas,

e ele trabalhou na sua construção.

 

Mesmo ali, onde era a sua casa,

virada ao mar, sem luz, sem água.

 

Ao fim do dia regressava à nova casa,

no vão de um viaduto,

por onde passavam diariamente,

todos os que iriam viver no nove condomínio.


publicado por canetadapoesia às 22:12
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Asas (2011)

 

 

Liberta-te dessas correntes que te prendem ao chão,

eleva-te homem, ganha asas e voa,

deixa para trás o que te atormenta,

esquece os maus momentos,

engrandece os bons e,

quando te sentires leve o suficiente,

abre essas asas que só o consegue

uma alma do tamanho do universo,

e sobrevoa, bem no alto,

toda a tristeza que te envolve.


publicado por canetadapoesia às 00:23
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Sexta-feira, 17 de Janeiro de 2020

Por esta passagem estreita (2011)

 

 

Entre o ser e o ter vai alguma distância,

e sou, mas não tenho,

e caminho nesta vereda verde

que me leva a uma estreita passagem,

tão curta que a tenho de cruzar de lado.

Vai-se apertando,

fazendo sentir na carne a sua estreiteza,

tolhendo futuros risonhos,

glorificando amanhãs incertos,

reduzindo-nos ao pó que nos há de,

com ventos favoráveis,

espalhar nessa passagem mais lata do universo.


publicado por canetadapoesia às 00:13
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