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Caneta Da Poesia

Caneta Da Poesia

25
Fev14

A idade dos “entas”


canetadapoesia

 

Era mais velho, mas ambicionava-o,

dez anos de diferença,

mas que interessava a idade,

se tinha acabado de entrar,

na fabulosa idade dos “entas”,

e o fogo da paixão a consumia.

Não descansou, não desarmou, nem desanimou,

com as iniciais recusas e fugas estratégicas,

tinha-o marcado, era ele que ela queria,

nada mais interessava, nenhum outro a atraía,

e tanto o cercou que acabou ganhando a batalha.

Teve-o só para si, com surpresa,

pelo que encontrou e desfrutou,

e em delírio repetia-lhe baixinho ao ouvido,

é de mim que precisas, sou eu que te sirvo,

não precisas de mais ninguém, estou aqui.

Tinha acabado de entrar nos “entas”,

e o fogo devorava-lhe o corpo.

24
Fev14

Lista de amigos


canetadapoesia

 

Também queria fazer uma lista de amigos,

e nela pôr por ordem crescente,

os nomes de cada um deles, assim uns atrás dos outros,

este é mais amigo, aquele é o segundo e por aí fora.

Queria disse eu, não me enganei,

queria mas não consegui,

tremia-me a mão, fugia-me o olhar,

saltava nomes, renumerava a lista,

nada, não saía lista nenhuma, não consegui.

Porque amigo não tem ordem, amigo não é,

mais do que ou menos do que,

amigo é amigo e nada mais que isso,

não pode ser primeiro, segundo ou outro qualquer.

Amigo é isso mesmo amigo.

Não tenho lista, não consigo fazê-la,

mas tenho amigos, muitos amigos,

e em todos eles eu vejo um só número,

uma única ordem e estão alinhados sim,

mas lado a lado, numa extensa fila horizontal.

24
Fev14

Sou a pomba de Lisboa


canetadapoesia

 

Pelos os teus telhados,

sobre os teus monumentos,

sobre ti e debaixo do teu céu azul.

Em voos rasantes ou mesmo mais altos,

de olhar atento a qualquer alimento,

sou eu, distinto e ancestral,

um habitante de Lisboa,

com longevidade e pergaminhos,

como nenhum outro nesta cidade,

por vezes odiado, outras tantas adorado.

Passam por mim e espantam-me,

muitas vezes me pontapeiam,

mas nos melhores dias, sensacional,

vêm até mim e ao bando que me acompanha,

trazem milho, migalhas de pão e outras iguarias,

e é uma festa, um bater e roçar de asas,

com saltinhos nervosos aqui e ali,

em busca de um pedaço do manjar.

Sou eu, sim, a pomba de Lisboa.

23
Fev14

De olhos vendados


canetadapoesia

 

Tudo se vê sem nada ver,

de olhos vendados nos dispomos,

no chão sentados, de caqui vestidos,

nas mãos um instrumento,

de morte, de vida, dependendo.

De olhos vendados,

com tempo contado,

montas u puzzle que te apresentam,

ainda que não saibas qual,

tens a certeza do encaixe das peças.

Como se abertos estivessem os olhos,

Pegas em cada uma com o cuidado desmesurado,

que um grão de areia pode estragar,

e montas, peça a peça, numa sequência atroz,

calma e apressadamente,

cano, culatra, ombreira e carregador.

Está pronta, anuncias na noite escura,

verificam-te a peça, manuseiam-na e gabam-te a destreza.

Está pronta, está apto, amanhã avanças.

22
Fev14

Amar eu amo


canetadapoesia

 

Amar eu amo,

Ah! Mas tem de ser à minha maneira,

sem muros ou barreiras,

que impeçam que me entregue,

por inteiro e sem reservas.

 

Amar eu amo,

Ah! Mas tem de ser um amor louco,

perdido nos arremedos,

varrido pela paixão que,

da loucura extravasa.

 

Amar eu amo,

Ah! Mas tem de ser em êxtase,

absorvidos sob a paixão endoidecida,

de uma única frase, “fazes-me tudo”.

 

Amar eu amo,

Ah! Mas tem de ser até ao fim.

22
Fev14

Invisíveis


canetadapoesia

 

Invisíveis grilhetas nos prendem os pés,

que as mãos têm de estar livres,

são necessárias para trabalhar,

ainda que a paga seja tão magra,

que já nem a tigela da sopa dos pobres,

nos seja mostrada como alimento.

Invisíveis são as grilhetas que aprisionam,

a alma de quem suporta tanta desgraça,

de quem quer e não pode atender,

aos mais ínfimos desejos e necessidades.

Invisíveis são as grilhetas que,

não se distinguindo a olho nu,

atormentam o espírito de cada um.

Quando se partem as grilhetas corre o rio que há em nós,

tumultuoso, insano, cego e descontrolado,

e nessas margens em que se espraia,

arrasta consigo os escolhos que a vida foi amontoando.

22
Fev14

Gosto quando vens de mansinho


canetadapoesia

 

Gosto quando te aproximas de mansinho,

quando vens lentamente,

e sobre mim derramas o último sopro.

Gosto de te ver no estertor do fim do dia,

e te sinto despontar em tardio amanhecer.

Gosto quando os últimos raios que te cobriam,

se vão lentamente dissolvendo.

Gosto quando, de repente, me surges,

e te prolongas em silêncio.

Gosto que me apareças quando o tempo é ameno,

quando abro a janela e sinto os teus cheiros inebriantes.

Gosto que me envolvas e me tentes,

que me exasperes na negridão que me trazes e,

da incerteza que carregas me despertas os sentidos.

Gosto de quando me deixas exausto e ofegante, sentindo que,

mesmo assim, nunca fui para além do que gostaria.

Gosto de ti, madrugada, serena e silenciosa,

que me levas a traçar neste papel branco,

linhas e círculos que de outra forma não faria.

21
Fev14

A apoteose


canetadapoesia

 

Era imensa a plateia, ia falar o líder e quando entrou,

as cabeças voltaram-se, foi a apoteose,

radiosos sorrisos emergiram daqueles rostos,

e a música explodiu em acordes fabulosos,

Paz, pão e liberdade, tudo o que se deseja para uma vida feliz.

Esqueceram evidentemente os estrondosos apupos ao líder,

antes deste se encontrar aconchegado por tantos aplausos,

são coisas menores, coisas de gente de má fé,

e para os abafar redobraram as palmas e vivas,

e o líder subiu ao palanque e falou,

reverencialmente se dobraram, como quem quer ouvir melhor.

De longe, observados bem, os rostos afinal não estavam tão abertos,

não apresentavam a alegria costumeira dos dias festivos,

estavam fechados, cerrados mesmo e um ar de preocupação,

perpassava por todos eles, não estavam contentes,

a preocupação reflectia-se em todos eles,

talvez com uma ou outra excepção, incluindo a do líder.

Versátil, bem falante, exposição clara, voz de barítono e,

sempre que questionava a ilustre assistência,

não recebia mais do que o olhar quase incrédulo de quem o ouvia,

e nem tinham razão para isso, afinal era o líder,

homem do mundo gestor exemplar de inúmeras empresas de sucesso,

que ali se apresentava com as responsabilidades acrescidas,

agora tinha um País para gerir e ali estava a prestar contas,

a todos os presentes, do enorme sucesso da sua governação.

Palmas no final, muitas palmas, com ou sem vitória,

afinal estava entre os seus, não podia ser diferente.

21
Fev14

Em surdina


canetadapoesia

 

Talvez seja melhor assim,

baixinho, em surdina,

para que os sentidos, alerta,

ouçam a palavra,

que da vida faz poesia.

Baixinho, para não espantar,

de modo a que a alma sinta,

na profundidade o poema.

Em surdina, sentindo o som,

que desperta a alma do poeta,

que expressivo entoa a palavra,

que por magia nos atravessa.

Baixinho, em surdina,

para não despertar a inveja,

dos que não apreciando,

podem estragar a festa.

Baixinho e em surdina, a poesia nasce,

de palavras contadas,

de vozes serenas e,

por vezes rasgadas e exasperadas.

21
Fev14

Vai bem o País


canetadapoesia

 

Vai ruindo à minha volta,

um País que de gente se vai minguando,

que deserto se vai fazendo,

e nas comemorações de qualquer coisa,

de que se desconhece a alegria,

se diz de si mesmo,

vamos bem, o caminho é certo.

À sua volta, as pessoas fenecem,

em estertores imensos,

de que não se fala,

porque é mau para os mercados,

dá uma imagem negativa.

Positivo sim, o País vai bem,

as pessoas talvez não,

e porquê?

Porque nos havemos de importar com as pessoas?

Afinal o País vai bem.

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