Segunda-feira, 31 de Março de 2014

Já não há montras livres

 

Em cada uma um corpo, inerte a esta hora da noite,

em cada uma um recanto, onde se abrigam,

e em todas elas uma luz que lhes ilumina a noite,

uma protecção frágil que os abriga,

sem que seja uma segurança de abrigo.

É só um resguardo da noite embrulhada nas estrelas,

que do alto do seu distanciamento,

tudo vêem, tudo apreciam, de nada gostam,

mas iluminam os corpos tristes que na sua protecção se abrigam.

E não há mais montras vagas, todas estão ocupadas,

e nós estamos também, ocupados, cabisbaixos,

nada vemos do que se passa ao nosso redor,

mesmo quando por azar, roçamos tão de perto,

que não só lhes sentimos a respiração,

como testemunhamos a sua profunda miséria.

Estamos tão preocupados em sobreviver,

que não reparamos que outros já se preocuparam também.

E por isso, tantas montras ocupadas,

tão poucas vagas entre elas.


publicado por canetadapoesia às 23:47
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Bom dia

 

Nem bom nem mau, diferente,

porque é primavera,

porque chove a cântaros e não devia,

já era tempo de o tempo estar ameno,

apetecível para calcorrear as ruas da cidade,

quente para aquecer os corpos,

o nosso e os outros a que gostamos de deitar o olhar.

Já era tempo que este tempo invernoso,

agitado e molhado, se aquietasse e,

por uns dias que fosse nos desse uma primavera,

daquelas de que ainda nos lembramos, a sério,

cheia de passarinhos a chilrear, flores a desabrochar,

e o sol, esse sol que tanta falta faz,

a fazer-nos tremer do prazer de sentir o seu calor.

Que maravilha de sensação sentir o corpo a aquecer.


publicado por canetadapoesia às 11:05
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Berreiro

 

Quando me olhas de frente,

fixas a vista, analisas por momentos,

arrancas num berreiro estridente,

e se berras, vais até ao vermelho escarlate,

destroçado me vais deixando,

sem saber o que fazer, como tratar contigo,

aconchego-te ao peito e em soluços,

vais acalmando e sossegando,

e eu, qual ignorante,

sem saber o que fazer, aconchego-te ao peito,

sentes que ali bate um coração por ti apaixonado.


publicado por canetadapoesia às 00:02
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Domingo, 30 de Março de 2014

Nuvens

 

Esbranquiçavam-se ao longe,

clareava o dia e os raios solares,

fortes, possantes e quentes,

sentiam-se impotentes,

eram demasiadas nuvens,

e apesar das tentativas,

não conseguia mais que,

clarear o dia e esbranquiçar as nuvens.

Caía sobre nós o cinzento celeste,

E com ele a tristeza da falta do rei sol.


publicado por canetadapoesia às 00:45
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Sábado, 29 de Março de 2014

Não há como

 

Há sempre aquela guerra inicial quando entras no carro,

disparas brincadeira em todas as direcções,

o senta, não senta na cadeira de segurança,

liga o rádio, acende as luzes a que chamas sol para te dar luz,

finalmente, sentada e amarrada, sem seres amordaçada,

para que te ouça durante o trajecto, perguntando ou falando só,

inquieta por natureza, não páras,

tens os braços livres e dás-lhe a melhor utilização.

Ao fim da viagem, já em casa,

se verifica e mantém a tua frenética actividade,

o vidro coberto de autocolantes,

apresenta as marcas da tua eficiência,

e o teu sorriso embala o meu,

quando te digo que gosto e não os tiro.

Ficas mesmo linda quando, esfusiante, te entregas à arte e criação.


publicado por canetadapoesia às 18:37
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Caminhando pela cidade

 

Assim me vejo, caminhando, entre a diversidade desta cidade,

gentes de todo um mundo, já demasiado pequeno para os albergar,

vagueiam por esta ruas e becos, que luzem debaixo de um sol radioso,

e começou com chuva, mas Lisboa é assim,

rega as plantas de manhã, dá-lhes sol a seguir, para que cresçam viçosas.

 

Dou de caras com uma manifestação, gritam todos, palavras de ordem,

e são jovens na sua maioria, “querem emprego, não emigração”,

ele não aparece e eles condenados estão, a uma nova diáspora,

a dos jovens mais qualificados de sempre do País.

 

Já calcorreei um bom par de quilómetros, sinto-os nos pés quentes,

deste sol que aquece a calçada,

porque as pernas só agora começam a aquecer,

mas a curiosidade do olhar sobre tudo e todos que me rodeiam,

levam-me a um descanso no Rossio, aqui onde tudo desagua,

sentado num banco disponível, caracoleando ao sol,

apercebo-me que apesar de tudo e de todas as crises,

a cidade está viva e recomenda-se, a mais linda cidade da Europa.


publicado por canetadapoesia às 12:43
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Sexta-feira, 28 de Março de 2014

Pulsar dos corações

 

Fala de mim, podes dizer o que quiseres,

mas não esperes troco,

não farei o que esperas,

porque sou inesperado,

porque não sigo as regras.

 

Ficarei em silêncio, escutando apenas,

e quando por fim te cansares,

já sei o que acontece,

e entre os pedidos de desculpa,

sentirei de novo o pulsar dos corações.


publicado por canetadapoesia às 23:54
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Vem noite e cobre-me

 

Vem noite e cobre-me,

deixa livre só um espacinho,

para que através dele veja a lua,

dissipe o olhar nas estrelas,

e adormeça em sonhos,

que se se realizarem,

trarão a felicidade a tantos.

Vem noite e cobre-me,

para que eu adormeça em teus braços,

para que me sinta protegido,

pelo teu escuro que assusta,

mas protege também.

Vem noite e cobre-me,

dá-me descanso e repouso,

traz-me o sol,

que me aqueça o dia que aí vem.


publicado por canetadapoesia às 23:09
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Copiosamente

 

Caía sem que se vislumbrasse uma acalmia,

grossa, forte e constante,

dificultava a vista e a condução,

mas mesmo assim, não disfarçava a tristeza,

que me ia invadindo a cada nova esquina.

Em cada vão ultrapassado,

mais gente se acolhia,

tolhidos nos andrajos que lhes serviam de roupa,

molhados, enregelados, barrigas a pedir comida,

encostavam-se uns aos outros,

não por amor, mas por necessidade de se aquecerem.

E eu que me queixo de ter dificuldades crescentes,

para cumprir as minhas obrigações,

para sanar as minhas finanças,

para comer algo de fora do frugal,

ainda consigo passar por eles,

triste e pesaroso, nem sei até quando,

mas não me molho porque passo de automóvel.


publicado por canetadapoesia às 13:20
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Quinta-feira, 27 de Março de 2014

Ainda menino e já a despontar

 

Um dia surgiu de repente,

caiu-me em cima sem contar,

e embora soubesse que me esperava,

não queria sequer pensar,

que naquele dia tinha de ser,

já não podia esgueirar-me para o lado,

não podia fugir, não podia esconder-me,

quisesse ou não, gostasse ou não,

estava irremediavelmente preso à teia,

que me impunham patrioticamente,

que me queimaria quatro anos de vida auspiciosa.

 

Tinha de “dar o nome”,

como se não soubessem onde me encontrar,

como se não soubessem de cor o meu nome,

como se achassem que era voluntariamente que o faria,

e naquela idade de menino a despontar,

com as hormonas a indiciar outras festas, outros agrupamentos,

caiu-me em cima com a força que uma Nação possui,

a obrigação de cumprir com o que ela determinava.

 

Relembro a fome, o frio, o esforço titânico,

para um menino naquela idade,

que de repente se vê manietado num horizonte fechado,

restrito e militarmente organizado,

forçadamente ensinado, treinado e preparado,

para à vida retirar vidas, para à morte fornecer candidatos,

um menino armado e treinado na pior das guerras,

em que os adversários não se viam, em que não se podia ter piedade.

 

Quatro anos de vida que agora tanta falta fazem,

que agora tão espezinhados são,

porque não vejo respeito nem honra,

em quem molesta de forma agressiva e sistemática,

quem pela Pátria deu a vida,

para que outros a vissem de outra forma,

sem ter que lhe dar nada,

voluntária e obrigatoriamente, como era de costume,

ignorantes de uma vida que nos levou parte dela,

e agora, querem levar o resto, sem nada dar.

 

Ainda menino e já a despontar, com as hormonas a aquecer,

já de idade e com as hormonas a explodir, sem piedade.


publicado por canetadapoesia às 22:50
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