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Caneta Da Poesia

Caneta Da Poesia

05
Abr14

Histórias que se contam


canetadapoesia

 

A cada um a sua,

contada, recontada vezes sem conta,

histórias que o tempo acama,

em lentas marés de calmaria,

que os homens passam de boca em boca,

com os pormenores que o tempo,

teimoso, tenta apagar.

Histórias que o vento nos trás,

pela boca de quem as viveu,

e que o tempo esbate na memória dos homens.

Histórias que se contam.

04
Abr14

Suportando


canetadapoesia

 

Vamos suportando, de caminho em ruela,

tudo o que é intolerável nesta vida,

neste vasto cemitério em que se transforma a Pátria,

tão amada, como Camões a definiu,

tão maltratada como a vemos actualmente.

Vamos suportando a vergonha de quem estende a mão,

e que nesse pérfido movimento,

procura o pão que já não o alimenta,

mas procura alimentar os filhos.

Vamos suportando este imenso caudal de injúrias,

que a Pátria devia colmatar com tudo o que lhe damos,

mas sente vergonha de defender os seus filhos,

porque olhos atentos, de fora desta terra, querem que seja assim.

Vamos suportando, as mentiras, desconsiderações e faltas de vergonha,

de quem devia ter pudor na assumpção do insuportável,

os ais e as dores, de uma Nação que sofre pela falta de futuro,

deste povo que já não suporta mais.

03
Abr14

Transparências


canetadapoesia

 

Através de ti olho este mundo,

que me rodeia e arrasta,

que serpenteia entre o gosto e o desgosto,

e saltita, vai não vai, saltita,

cambiando de cor e amor.

E tu, gota de chuva,

que cais sobre meus olhos,

mesmo assim vejo,

pela tua transparência e luminosidade,

reconheço o mundo que gostaria fosse diferente,

cambiando, sim, sempre,

mas para um mundo melhor.

03
Abr14

Passam por mim


canetadapoesia

 

Passam lestos por mim,

a caminho de não sei onde,

correm a vida nos pés que se arrastam,

sem apreciarem a paisagem.

 

Passam lentos por mim,

mãos descontraídas,

devagar, sem destino,

que a vida fez-se para se apreciar,

e olham, suspendem a passada,

e num voltar de cabeça,

abarcam todo um mundo que os rodeia.

 

Passam lestos ou passam lentos,

mas passam por mim, no Rossio.

03
Abr14

Amendoados


canetadapoesia

 

Com esses olhos grandes,

de amêndoa alargados,

cabelos de fogo avermelhados,

mãos finas e dedos compridos,

cruzados frente ao rosto expressivo de quem pensa,

e a boca, de lábios carnudos, sensuais,

desejosos de outros iguais,

estereótipo do sorriso franco,

aberto e alargado dos desejos que vão criando,

e nos dentes, ainda, sobressaindo a cada sorriso,

um fio prateado de aparelho dentário.

A ninfeta diáfana da mulher de sensualidade futura.

02
Abr14

Metralhadora


canetadapoesia

 

Sempre que a via, emocionava-me,

era uma máquina infernal,

disparava em todos os sentidos,

e a mortandade era geral.

Bastava para tanto que se carrega-se num botão,

como agora se diz, porque na época o nome era outro,

chamava-se-lhe simplesmente tecla,

e dessas teclas, se disparavam as mais diversas munições.

Quando se sentava defronte dela já estava preparado,

para dar início à guerra, fratricida, total, se necessário fosse,

e punha-se a pressioná-las de tal forma, que nada ficava ao acaso,

chegava mesmo a ser violento com elas, na ânsia de atingir os seus alvos.

Uma máquina de escrever, portátil, pois então, já havia destas coisas,

do seu metralhar de um compasso assustador, firme,

saíam textos de quem sabia escrever, em português, já se vê,

sem acordos ortográficos, que isso são modernices,

para nos fazer esquecer as belezas desta língua universal,

de tal forma certeiros, tão acutilantes que foi, finalmente,

decretado o seu fim, exterminada sem dó nem piedade,

substituída pela ortografia das novas linguagens digitais.

Uma máquina terrível, mais mortífera que qualquer outra,

que de guerra se denomine e apresente,

mas indissociável da evolução humana,

uma arma de arremesso de quem sabia escrever e pensar,

temida por todos os arautos da incongruência,

os pavoneadores da palavra fácil e mentirosa.

Era aquilo que diferenciava o ser humano pensante,

do que seria o animal cavernoso da obscuridade,

uma arma mortal para quem usava do ardil,

para adormecer as mentes que se recusavam a ceder,

por isso tinha um nome adequado à sua função,

e por isso era terrível e se chamava simplesmente,

Máquina de Escrever.

E que bem escrevia, como nos enchia o coração,

quando ouvíamos o seu matraquear,

e a alma completava a satisfação, repleta de prazer.

Uma Máquina de Escrever.

01
Abr14

À parede


canetadapoesia

 

A rua deserta, fria e solitária,

da noite longa que atravessas,

a parede como suporte,

e o cigarro que vai aquecendo,

o corpo já quente que aguarda,

um outro corpo, frio e solitário também,

que procura o calor desse teu corpo que ofereces,

entregas-te a troco de algo, a troco de nada,

entregas-te a troco de quê?

A troco da satisfação da necessidade,

que encontra a necessidade de satisfação,

de um corpo frio no teu corpo quente.

01
Abr14

De visita a Pessoa


canetadapoesia

 

Fui entrando naquela que é a sua casa,

procurando por ele, devia estar por ali,

mas encontrei Caeiro,

e mais à frente dei de caras com Reis,

sem desistir continuei a procura,

encontrei Campos mas de pessoa nem sombra.

E finalmente,

ao encontrar num dos cantos da livraria Search,

descobri que ele estava mesmo à minha vista,

diante dos meus olhos sem que eu o vislumbrasse,

pois Pessoa eram todos eles e mais alguns,

de que nem sequer falei, nem mencionei.

Mas ali estava ele em todas as suas personagens,

mais maravilhoso que nunca,

um Pessoa desconhecido e cheio de conhecimento,

um doutor das letras que só esteve seis meses na Universidade.

E no entanto, o maior poeta português do século XX,

Fernando Pessoa de seu nome,

em pessoa, ou antes, em pessoas, recebendo-me em sua casa.

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