Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2015

Três pedras (2012)

 

Três pedras iguais, três pedras diferentes.

Uma preta, uma branca e a outra,

um mistério,

é a mistura das duas anteriores.

 

Três pedras iguais, três pedras diferentes.

 

Recolhidas na praia por serem roliças,

lisas e tão diferentes entre si,

que suscitam alguma reflexão,

e no entanto simplesmente três pedras,

calhaus o que se queira chamar-lhes.

 

Questiono-me sobre o que pode conter uma pedra?

Uma alma, um sentimento, um mundo dentro de si?

Prosaicamente,

grãos de areia solidificados,

limados das suas arestas,

ao longo de centenas, milhares de anos até.

 

Um dia, apanhadas na praia,

porque alguém lhes encontrou alguma beleza,

algum não sei quê de diferente.

 

Tê-las na mão é, já de si, uma experiência nova, diferente.

Senti-las húmidas de água salgada,

acabadinhas de rolar na areia de onde foram retiradas, ou,

talvez, quentes do sol abrasador que as fustiga,

impiedosamente até que,

uma próxima onda as envolva de novo no seu sal molhado.

 

Três pedras iguais, três pedras diferentes.

 

Uma muito branca, outra muito preta,

outra, ainda, de ambas as cores.

 

Coexistem no mesmo mar,

envolvidas pelas mesmas ondas,

roladas na mesma areia e no entanto,

simplesmente pedras, pedras de várias cores,

sem nenhum espírito de separação entre elas.

Limadas até ao extremo em que a sua textura,

se torna suave e macia ao tacto, três pedras.

 

Se nada mais dissessem,

seria suficiente gostar delas e guardá-las,

mas dizem,

dizem muito daquilo que é o mundo em que vivemos,

como se formou, como se desenvolve,

como se coexiste entre pedras que são brancas umas,

pretas outras e de ambas as cores, outras ainda.

 

Três pedras iguais, três pedras diferentes.

 

E no entanto fica a questão,

o que podem conter estas três pedras?

Conterão, pelo menos, uma lição de vida,

três pedras de cores diferentes,

coexistem pacificamente nas praias que frequentamos.

 

E os humanos não conseguem coexistir,

porque lhes faltam muitos anos,

para limarem as suas arestas e ficarem lisos,

aveludados e macios aos contactos com outros humanos.

Tempo é o que precisamos para limar as arestas,

e como as pedras,

ainda ficaremos aveludados.


publicado por canetadapoesia às 22:05
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Não me apetece (2012)

 

Não me apetece!

Estou assim nestes dias de negação.

Não me apetece e pronto!

O problema é que nem sei bem o que me apetece,

não sei que faça ou que não faça.

Uma coisa é certa,

não me apetece!

E assim  sendo que me resta?

Sentar-me, ler um livro,

até que a coisa passe,

depois pode ser que já me apeteça.


publicado por canetadapoesia às 14:48
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Telefone (2010)

 

Telefonas-me, ou eu telefono-te.

A comunicação tem de se fazer,

e faz-se, mesmo sem telefone.

Cada um sente o outro,

a sua presença ou ausência,

um sexto sentido se desenvolve em quem se quer,

uma necessidade que está presente na alma de cada um.

A tremenda complexidade do ser humano.


publicado por canetadapoesia às 01:33
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Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2015

Monte de Vénus (2013)

 

Dedilho-te o corpo,

sem pressionar muito,

só pela sensação,

só para me sentir roçar-te a pele.

Fecho os olhos,

aspiro-te em mim,

encho-me do teu perfume.

Como ave solitária,

salto em teu corpo,

de monte em monte,

e no monte de Vénus,

por fim, me acolho.


publicado por canetadapoesia às 23:34
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Nos livros (2013)

 

Deitado de barriga para baixo,

abro o livro e folheio as primeiras páginas,

entusiasmo-me com as primeiras letras,

e ávido delas embrenho-me na sua compreensão.

Esqueço o mundo que me rodeia,

vivo a aventura da escrita,

e transformo-me naquilo que gostaria de ser,

sobretudo feliz,

viver com dignidade,

não ter faltas e muito menos conhecer a fome.

Nos livros, tudo se transfigura,

nos livros não matamos a fome,

que nos comprime o estômago,

mas alimentamos a alma,

que nos transporta para mundos melhores.


publicado por canetadapoesia às 23:27
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Dois relógios (2013)

 

Do que falo quando falo de relógios?

Falo da alma,

daquilo que o passado representa,

para quem dele quer fazer futuro.

 

Dois relógios é o que tenho,

não por serem como os outros,

marcarem horas, mostrarem calendário,

nada disso me interessa nestas peças,

o importante é a quem pertenceram.

 

Um deles ao meu avô,

grande, com tampa, de bolso e com cordão,

o outro ao meu pai,

mais moderno para a altura,

automático, com calendário,

bastava mover o braço para lhe dar corda,

umas preciosidades.

 

Não porque valham materialmente,

mas porque para a alma não têm preço.

 

São objectos de vida,

de vidas passadas,

de vidas actuais e futuras,

objectos da alma,

são dois relógios com saudade dentro.


publicado por canetadapoesia às 21:06
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Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2015

Seda pura (2014)

 

Logo ao primeiro toque,

no seu corpo dourado,

sentiu a seda da sua pele,

lisa, macia, expectante,

e o seu desejo dela,

de imediato se revelou,

física e espiritualmente,

forte e grande,

duro e ingovernável,

na pureza da seda,

uma brecha se abriu,

e sobre ela se derramou,

em loucuras imaginadas.


publicado por canetadapoesia às 23:51
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Frio (2014)

 

Está frio,

esta noite está frio,

sinto-me enregelar,

e nada do que me lembre,

me consegue aquecer.

Está frio,

sinto-o nos ossos,

sinto-o na pele.

Está frio,

e preciso de ti,

para com o teu corpo,

me envolveres nas ondas do calor,

que só dois corpos juntos produzem.


publicado por canetadapoesia às 00:02
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Domingo, 1 de Fevereiro de 2015

Deixo-me vaguear (2014)

 

Se te falo com meus olhos,

não o faço por desdém,

se te olho com prazer,

é por sentir algo em mim,

é por sentir algo em ti.

Na profundidade do teu olhar,

mergulho e perco-me,

deixando-me lentamente,

vaguear, em ti.


publicado por canetadapoesia às 23:55
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Humores (2010)

 

Por que razão hoje estou triste,

Amanhã estarei alegre e,

De seguida refaço de novo o caminho?

Não consigo justificar!

Sei que é assim,

Sei que sou assim,

Mas não consigo justificar.

No entanto,

hoje estou triste e amanhã estarei alegre.

Nada mais que os humores da existência,

da vida,

que afectam os nossos estares.


publicado por canetadapoesia às 15:22
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