Quarta-feira, 30 de Novembro de 2016

De chorar por mais (2013)

 

 

Cortei-o em pedaços pequenos,

queria fazê-lo render ao máximo,

meti o primeiro na boca,

duro, escuro, mesmo negro,

volteei-o entre a língua e os dentes,

começou a demonstrar-se pastoso,

espalhou-se pelo palato,

um amargo doce de fazer vir as lágrimas aos olhos,

e sem lhe dar nenhuma dentadinha,

foi-se derretendo, diluindo entre sorrisos de prazer.

Engorda dirão alguns, pecado dirão outros,

supremo prazer dirá a maioria e,

corroborando desta opinião,

acrescento, o céu na terra,

puro prazer dos sentidos o sentir do chocolate.


publicado por canetadapoesia às 01:36
link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 29 de Novembro de 2016

Voragem (2016-11-16)

 

 

Correm desalmados,

incansáveis,

um atrás do outro,

numa velocidade estonteante.

Mesmo quando se tenta alcançá-los,

desaparecem da vista e somem-se

no somatório dos anos que nos ultrapassam,

correm com uma voragem infinita

nesta nossa vida que os alimenta.

Deixam-nos atónitos e sós

num mundo que por si,

se vai também consumindo

na voragem dos dias que vivemos.


publicado por canetadapoesia às 00:36
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 28 de Novembro de 2016

Quente e frio (2013)

 

 

Então o sol que despertara mais tarde,

apercebe-se desta anomalia estratégica,

que lhe retira a primazia do reinado,

sobre a terra que quer quente e que,

sempre manteve envolvida pelos seus acalorados raios.

E atira com força,

uns quentes e rápidos laivos do seu poder,

aquecendo o que era frio,

derretendo o que em água se tornará,

ao mesmo tempo que fecunda a terra sedenta,

da vida que aí virá, na primavera, entenda-se,

que já não vem longe e se aguarda com ansiedade.


publicado por canetadapoesia às 01:34
link do post | comentar | favorito
Sábado, 26 de Novembro de 2016

Escrevo poesia (2013)

 

 

Pois eu cá, escrevo poesia também,

porque gosto, porque me liberta,

admito até que haja quem não goste ou não aprecie,

mas escrevo-a sem me preocupar se alguém a lê,

vem de dentro de mim, com força,

como o vento que me açoita em dias de tempestade,

e sai-me muitas vezes sem que a procure,

sai com prazer umas vezes, outras sensual e até enraivecida.

Posso garantir que sai sempre do mais profundo de minha alma,

E que nela encontro alguma satisfação,

pelo rugir da mágoa que me vai inundando o coração,

e por ela me liberto de constrangimentos,

da raiva inconfessada pela impotência da revolta,

do amor que procuro distribuir pelos meus semelhantes,

e porque não dizê-lo também,

pelo entoar do hino às mulheres,

que são as musas e a continuação desta espécie,

que de humanos cada vez tem menos.


publicado por canetadapoesia às 00:03
link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 24 de Novembro de 2016

Até onde a vista alcança (2013)

 

 

No céu recortava-se a borrasca,

em forma de pesadas nuvens negras,

mais próximo, junto a terra,

debruavam-se o cimo dos montes,

encabeçados do nevoeiro opaco,

aqui e ali coroados de branco.

Na terra que calcávamos,

molhada pela chuva constante,

alagada pelos imensos lençóis de água,

distinguíamos ao longe,

bem para lá do que a vista alcança,

muito além do esticar de um braço,

a monumental catedral de Tuy,

encimando as casinhas circundantes,

minúsculas quando daqui as olhamos,

e para lá chegar em corpo,

o rio Minho e a secular ponte,

de ferro forjada e cinzento pintada,

e por cima, até passa ainda, o comboio.


publicado por canetadapoesia às 23:41
link do post | comentar | favorito

Cacilheiro (2013)

 

 

Imponente, o velho cacilheiro,

aproximava-se de um cais há muito conhecido.

Arribou ao molhe tomando posição,

amarras lançadas ao cais,

acostado e seguro abre os portalós.

A gente desembarca em correria louca,

para chegar nem sei onde,

e o cacilheiro aguarda agora,

nova vaga de gentes que entram,

que se acomodam às vistas que ele proporciona,

que partem na dormência que só o rio oferece,

na forma de um velho cacilheiro.

Fecham os olhos e dormitam por um pouco,

ou sonham com outras águas,

mares distantes, sem cacilheiros,

navios de cruzeiro, talvez,

adormecidos pelo leve balançar,

que o manso ondular do rio oferece.


publicado por canetadapoesia às 00:43
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 23 de Novembro de 2016

Tudo que há a fazer (2016-11-19)

 

 

Quando o olhar se me perde

neste imenso horizonte e

se turva na lonjura,

é a vida em todo o seu esplendor,

com a visão clara de um mundo

sonhado e não realizado,

um mundo que me vai toldando o olhar

ao longo da estrada que percorro.

E é tão longe, tão distante,

aproxima-se tão depressa

que a velocidade nos causa vertigens.

Vai-se toldando o olhar,

vemos já desfocado o mundo e,

um dia qualquer,

deixamos de o ver e acaba-se a viagem.


publicado por canetadapoesia às 21:30
link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 22 de Novembro de 2016

Não vou por aí (2013)

 

 

Não, não vou por esses caminhos,

sou do contra e sempre serei,

contra ditaduras e outras formas de pressão,

contra xenofobias e outros modos de aniquilamento,

se fiz a guerra?

Sim fiz, mas a minha e não a que queriam que fizesse,

do cano da minha espingarda,

não saiu a chama que apagasse o sopro da vida,

essa é sagrada mesmo quando de mim discordam,

mas sou do contra,

não assino por baixo de qualquer lista em que não acredite,

não sigo o rebanho por muitos carneiros que tenha,

mesmo que venham limpinhos e engravatados,

sou do contra.


publicado por canetadapoesia às 14:12
link do post | comentar | favorito

Chamávamos-te mulato (2016-11-21)

 

 

Éramos pequenos e brincávamos todos,

de todas aquelas cores se formava o nosso arco-íris,

brancos, pretos e mestiços, éramos nós e brincávamos.

Tu eras a fonte da nossa inspiração,

chamávamos-te mulato e tu afinavas com isso,

e eram tantas as vezes que um dia,

quando menos esperámos saíste da casca e respondeste,

que não, mulato não eras, nem branco, nem preto,

eras da cor do amor e calaste-nos de vez.

Disseste então, doutamente para a tua idade,

certamente industriado pela tua mãe,

que eras de uma cor rara, a cor do amor,

e ficámos em silêncio para ouvir o que dizias,

continuaste afirmando que a tua cor era a do amor.

E era de facto, a cor do amor entre dois seres humanos,

que apesar da diferença de cor eram ambos e simplesmente,

seres humanos com “H” grande,

tão grande que geraram uma nova cor no universo.

Eras filho de um casamento não muito vulgar,

um casamento de amor e por amor,

daqueles em que as cores não interessam nem importam,

porque o amor não tem cor e prova eras tu,

com uma mãe branca como a neve

e um pai que estava longe da brancura dela,

mas no fim deram à luz deste universo um menino,

da cor do amor e isso era invejável e indesmentível.

Foi nesse dia que passámos a chamar-te amor,

ficaste mais irritado,

mas como em todas as estórias de crianças,

tudo acabou em mais uma brincadeira do arco-íris que nós éramos,

só nos perdemos no tempo porque a vida a isso nos obrigou,

mas como vês, apesar da distância que nos separou,

ainda hoje és da cor do amor e,

na saudade da separação,

serás sempre da cor dos corações sem cor.


publicado por canetadapoesia às 01:21
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 21 de Novembro de 2016

Pelo olhar (2013)

 

 

Não sei se estou aqui olhando o que não quero,

sei que procuro um olhar,

e se nessa procura o encontrar,

sei que não foi em vão o meu,

porque nesse momento em que as pálpebras,

ofuscadas se fecharem e abrirem,

foi encontrado o propósito da vida,

e nesse momento o amor fala mais alto.


publicado por canetadapoesia às 19:17
link do post | comentar | favorito (1)

Mais sobre mim


Ver perfil

Seguir perfil

. 14 seguidores

Pesquisar

 

Agosto 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9

17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30
31


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Posts recentes

O que assusta (2010)

Poesia sem dono (2010)

Pequenas coisas (2010)

Sucesso (2010)

Menino (2010)

Imagem (2010)

Pingos (2010)

Prazo de estadia (2010)

Pardais de Lisboa (2010)

De frente (2010)

Arquivos

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Links

SAPO Blogs

subscrever feeds