Segunda-feira, 29 de Maio de 2017

Era uma tarde (2017-03-22)

 

 

Era uma tarde como tantas outras tardes,

o calor atrevia-se por entre as ervas suadas

onde gotículas de água,

vindas não se sabe de onde,

verdejavam o prado quente.

Nesta imensidão de calor destravado,

por raios inclementes de um sol

em busca do seu próprio tempo e

do verão onde estacionaria algum tempo,

sentia-se o trinar dos melros apavorados que,

de arbusto em arbusto,

de ramo em ramo equilibrados,

saltitavam esvoaçantes em fuga do destempero do tempo,

em busca de alimentos que apesar de tudo

seria o seu sustento, a sua ponte para a vida.


publicado por canetadapoesia às 22:59
link do post | comentar | favorito
Sexta-feira, 26 de Maio de 2017

Lembro-me como se fosse hoje

 


Tinha dezassete anos e era órfão de pai!

 

Obrigado desde cedo a trabalhar para se sustentar e viver, ali estava, a setecentos quilómetros de casa, longe de uma mãe que se tornara guerreira pelas agruras da vida e de um irmão que, sendo mais novo, logo teria de se atirar à luta também!

 

Eram os tempos da solidão e desespero, eram os tempos em que a segurança social não existia, eram os tempos em que o melhor podia aparecer com o recrutamento militar, eram os tempos mais negros que se podiam viver!

 

Instalado num modesto quarto de pensão de quarta categoria, ali tinha o seu pequeno e restrito mundo que, mesmo sendo pequeno, não o iludia quando ao regressar do trabalho o via remexido e revoltado pela perícia dos inquisidores que procuravam e não se cansavam de o fazer. Porque simplesmente tinha um amigo que era um alvo referenciado e, como tal, também o poderia ser!

 

Durante alguns anos, três, mais precisamente, ali comemorou os aniversários, longe de todos os seus, longe de tudo, cercado pelo silêncio mais atroz que se possa imaginar, sem festas, sem bolos de aniversário e as únicas velas acesas eram as da lâmpada do tecto que mal iluminavam o aposento.

 

Num pequeno rádio de pilhas ouvia alguma coisa do mundo, o que permitiam, claro, e deitado sobre a cama sonhava que um dia, um qualquer dia desta vida, as coisas poderiam vir a ser diferentes, até poderia vir a ser uma pessoa como as outras que ali deitado sonhava.

 

Nesses momentos ouvia música e ficou-lhe na memória uma que acabara de ser lançada, “A day in the life”, pelo agrupamento que havia de ser reconhecido mundialmente como “The beatles”.

 

Como essa música o marcou, como ela o acompanhou, sempre na esperança dos dias sonhados e melhorados em função da música!

 

Eram os dias tristes e acabrunhados de quem tinha de fazer pela vida, mesmo sendo ainda menor de idade porque nessa altura a maioridade era aos vinte e um anos!

 

Eram os dias do fim de uma meninice que havia sido feliz, eram os dias do tormento, do silêncio e da solidão atroz que jamais será esquecida!

 

Era o início de mais quatro anos sem retrocesso, numa guerra que não devia ter sido!

 

Vidas marcadas pelo destino incontrolável!

 

Sem culpados, sem lamentos, sem remorsos, sem nada de palpável que nos alegrasse os dias, só a vida em toda a sua robustez! 

 

Luis Filipe Carvalho


publicado por canetadapoesia às 19:46
link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 25 de Maio de 2017

Fumegante (2014)

 

 

Exalam do seu interior,

voláteis e esparsas colunas,

de um fumo aromático,

a café quente, torrado, sensual.

Dessas colunas me sobressaem,

nas asas da minha fértil imaginação,

os imensos terreiros em verde e vermelho pintados,

das cores das imensas bagas espalhadas,

do café que, colhido se prepara ao sol,

para o repouso que o secará.

E cânticos que se repetem,

em sons guturais e sucessivamente entoados,

por quem daquela vida fazia vidas,

e em cada bago daquele grão do prazer,

com que os homens se deleitam,

ou se escondem por trás do seu fumo,

via uma vida dura e exigente,

mas de uma simplicidade desconcertante.


publicado por canetadapoesia às 16:15
link do post | comentar | favorito

Aos magotes (2014)

 

 

Chegavam em grupos, aos magotes,

asas abertas à liberdade que a idade lhes permitia,

e a saudade ausente lhes assegurava,

como tributo à amizade celebrada.

Falavam entre si, entre todos,

conhecidos, amigos ou simplesmente presentes,

gratos pelo ajuntar dos anos passados,

num momento único, o encontro anual.

Um encontro da saudade com a amizade,

do carinho da distância, com o mais puro prazer,

de uma presença que se sente,

palpável e calorosa na aproximação.

Os decibéis a aumentar, e os corpos a pedir,

balanço e embalo envolvente e um abraço quente,

dos trópicos feitos Europa, e nele se deixam ir,

em sorrisos mil vezes calorosos.


publicado por canetadapoesia às 16:02
link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 23 de Maio de 2017

Ofuscação (2011)

 

 

E assim,

julgando ser o único,

que não mudava,

que não prestava,

face aos actuais padrões,

ainda mantinha princípios,

que para nada já contavam,

deixei-me desvanecer nesta dúvida,

que de existencial nada tinha,

mas que significava a nova existência.

Depois, conheci outros,

com os mesmos sintomas,

sofrendo com os mesmos padrões,

concluí que não estava só.

O complexo universo onde nos movemos,

tem estrelas em ascensão,

que para melhor brilharem,

têm de ofuscar as existentes.


publicado por canetadapoesia às 23:11
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 22 de Maio de 2017

Esta era a tarde (2011)

 

 

Esta era a tarde que como todas as tardes,

tardava em brilhar ao sol escondido,

esta era a tarde que como tantas tardes,

fervia no sangue dos injustiçados,

esta era a tarde que como tantas tardes,

enchia as ruas do protesto singelo,

de quem só pela voz se faz ouvir.

Esta era a tarde que como tantas tardes,

passadas no refúgio da história da Pátria,

criaram as sementes da revolta,

pela infame flor de lis cravada em seus corações.

Esta era a tarde como tantas tardes,

que ainda podia ser diferente,

esta era a tarde em que poderíamos ter assistido,

ao relançar da inteligência, da sabedoria,

de quem quer contar com os seus cidadãos,

não para os espezinhar e amesquinhar mas,

para os tornar seres humanos, responsáveis pelo futuro do País.

Esta é a tarde que marcou mais uma ignomínia,

Sobre o povo que tão mal tem sido dirigido.


publicado por canetadapoesia às 23:20
link do post | comentar | favorito

Asas (2011)

 

 

Liberta-te dessas correntes que te prendem ao chão,

eleva-te homem, ganha asas e voa,

deixa para trás o que te atormenta,

esquece os maus momentos,

engrandece os bons e,

quando te sentires leve o suficiente,

abre essas asas que só o consegue

uma alma do tamanho do universo,

e sobrevoa, bem no alto,

toda a tristeza que te envolve.


publicado por canetadapoesia às 23:17
link do post | comentar | favorito
Domingo, 21 de Maio de 2017

O peso das coisas (2012)

 

 

Fui formiga,

não me transformei em cigarra,

e com a dificuldade do peso das coisas,

nem como formiga me encantei.


publicado por canetadapoesia às 20:41
link do post | comentar | favorito

Num pratinho (2012)

 

 

Tremoços,

ao lado uma loirinha,

fresquinha e espumante,

no ar, o calor do verão,

sentindo-se abrasador,

no coração,

a calma e o sentimento,

de uma perene felicidade.


publicado por canetadapoesia às 20:38
link do post | comentar | favorito
Sexta-feira, 19 de Maio de 2017

Quando me for (2013)

 

 

Espero ter tempo,

para um último gin tónico,

para um charuto de despedida,

para um adeus às plantas e flores que me rodearam,

para me despedir das minhas princesas,

e finalmente assistir ao repousar do sol,

até que definitivamente se deite.


publicado por canetadapoesia às 20:11
link do post | comentar | favorito

Mais sobre mim


Ver perfil

Seguir perfil

. 15 seguidores

Pesquisar

 

Novembro 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
13
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Posts recentes

Prazeres da carne (2011)

Hoje (2011)

Ausência (2011)

O infinito olhar (2011)

Guardador de sonhos (2011...

Aparências (2011)

A esquina mais próxima (2...

Havia árvores (2011)

A concha (2011)

Voracidade (2011)

Arquivos

Novembro 2019

Outubro 2019

Setembro 2019

Agosto 2019

Julho 2019

Junho 2019

Maio 2019

Abril 2019

Março 2019

Fevereiro 2019

Janeiro 2019

Dezembro 2018

Novembro 2018

Outubro 2018

Setembro 2018

Julho 2018

Junho 2018

Maio 2018

Abril 2018

Março 2018

Fevereiro 2018

Janeiro 2018

Dezembro 2017

Novembro 2017

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Links

SAPO Blogs

subscrever feeds