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Caneta Da Poesia

Caneta Da Poesia

23
Jun19

Baço brilhante (2016)


canetadapoesia

 

 

Sob a luz feérica que acendia a noite,

a cidade resplandecia de beleza

e a lua, do alto da sua sabedoria,

sorria em pleno de bochechas inchadas.

Mas as estrelas não brilhavam como de costume,

estavam baças, pouco cintilantes,

de algumas delas escorria uma lágrima furtiva,

e nas suas pontas brilhantes,

reflectia agora a luminosidade do sal

que das suas lágrimas se soltava.

Porque cobriam o céu sobre a terra,

espalhadas que estavam conseguiam ver tudo

e o que viam entristecia-as.

Por baixo de todo este brilho havia pessoas,

o que seria normal numa cidade feericamente iluminada,

o que não esperavam era ver tanta gente espalhada,

estendida sob as arcadas das portas, debaixo dos viadutos,

envoltos em tudo o que as ajudasse a passar as noites frias

ao luar de uma lua sorridente, debaixo das estrelas entristecidas.

23
Jun19

Madrugada (2014-12-06)


canetadapoesia

 

 

Atravesso a madrugada,

em silenciosas pontas de pés,

o ruído ausente na noite

exacerba-me os sentidos,

e um ouvido quase nulo no dia,

transforma-se numa máquina de captação de sons.

O cão sobe as escadas, dá três voltas e,

encolhe-se no catre estrategicamente colocado,

na noite, agora,

só o barulho ensurdecedor do virar das páginas

de um livro denso e que já vai longo,

da parede oposta saem sons nocturnos,

de uma esgazeada noite não terminada ainda,

rangem as camas, gemem as pessoas,

não me afectam, oiço e sorrio, a noite dos sonhos.

E de repente o silêncio absoluto cai no mais profundo dos oceanos,

nesta noite escura, quente ainda,

que para mim começa agora.

23
Jun19

Da nostalgia (2015)


canetadapoesia

 

 

Cinzentão, húmido, meio triste,

a atirar para o nostálgico,

a pedir reflexão sobre a existência

de pacatos humanos sobre a terra.

 

Não deixa, no entanto, de ser mais um dia de Lisboa,

felizmente não são todos assim.

 

Nalguns, a maioria, brilha o sol,

esquecemos a nostalgia,

banhamo-nos de luz quente e acolhedora,

sentimos a existência pecadora de que somos feitos.

22
Jun19

Arrumadinhos


canetadapoesia

 

 

A um canto do vão de escada,

na entrada de uma garagem,

lá estavam, arrumadinhos e em monte,

de diversas formas, tamanhos e cores,

os cartões que servem uma vida

despojada de tudo o mais

que a outras vidas serviu.

Já tiveram outra serventia,

foram utilizados para outros fins,

com objectivos, talvez, materiais e agora

na fase final do seu ciclo de vida,

servem outras e humanas vidas.

Os cartões!

Que se espalham pela cidade,

nas esquinas e vãos de prédios,

habitados por quem não os utiliza

e deles se desfaz em favor de vidas dispersas.

Cartões que se avolumam nas esquinas da vida

e enchem as ruas desta cidade.

21
Jun19

Deambular (2012)


canetadapoesia

 

 

É isto, andar por aí,

dar umas voltas na cidade,

conhecer os becos desconhecidos,

porque uma vida que aqui se viva,

não chega para os conhecer todos.

A dinâmica que a cidade imprime,

às suas ruas e ruelas escondidas,

garante-nos, em cada nova visita,

toda uma diversidade desconhecida.

Na Mouraria, quem diria,

verdadeiramente assim agora descrita,

desta forma prazenteira,

dos primeiros de outrora,

poucos serão os que já não o são.

Este País é um mundo e vai crescendo,

porque este mundo não se confina,

ao mundo que conhecemos e cresce,

com o crescimento do mundo.

21
Jun19

Soltam-se os poemas (2014-11-27)


canetadapoesia

 

 

Sente-se por trás da vidraça,

esse silêncio que da rua não é perturbado,

cria-se a atmosfera suficiente,

a que é necessária para das letras fazer escrita,

no aglomerar destes pensamentos silenciosos,

soltam-se os poemas,

espalham-se pelo ar que me rodeia,

enchem-me a alma

da essência que me traz vida,

e o espasmo aleatório com que me envolvem,

na criação das ideias passadas ao papel,

espantam-me,

porque me deixo ir,

porque me deixo envolver,

porque a escrita me está intrínseca,

e a poesia é o ar que respiro.

20
Jun19

Quando nada mais restar (2014-10-01)


canetadapoesia

 

 

Seremos simplesmente memórias,

quando nada mais restar,

desta matéria de que nos compomos.

Saímos deste mundo,

de mansinho ou com estrépito,

mas no silêncio que se seguirá,

só as memórias marcarão presença,

até que,

também elas se desvaneçam,

e então só a ausência,

na presença do silêncio,

restará de cada um de nós.

20
Jun19

Sobrevoando (2013)


canetadapoesia

 

 

Por cima, olhando-te dos céus,

na tua sonolência madrugadora,

no descanso do guerreiro que há em ti,

e eu por cima, sobrevoando-te,

ainda o dia se espreguiçava e a noite,

em acentuada decrepitude,

ia acendendo os raios de um sol,

que ao longe se anunciava.

Olhava para baixo, extasiado,

e tu, cidade, dormias o sono dos justos,

ainda que a injustiça seja a tua constante,

mas dormes, dormes a noite dos justos,

e enganas os que em ti confiam,

mas desta altura em que me encontro,

e tu não passas de um amontoado de luzinhas,

pequenas e brilhantes, estás em paz.

Lisboa na madrugada de um adeus,

que será breve, rápido,

mas que servirá para recordar,

a saudade da sua beleza imortal.

19
Jun19

Ao cair da tarde (2014-11-16)


canetadapoesia

 

 

Ao cair da tarde,

depois de lauto almoço,

africano no gosto e na poesia

dos encontros esquecidos,

de um tempo inesquecível,

solta-se o som de uma música

que não é indiferente,

crescemos com ela, vibrámos com ela,

e com ela nos reencontramos

ao cair da tarde de Lisboa,

como se fosse diferente do cair de tarde

da Vila Alice ou do Prenda,

ou de qualquer outro dos bairros da meninice,

em que o som dos batuques

anunciavam a noite quente de África.

Ao cair da tarde,

o som da saudade, a poesia de uma vida,

rica em diferenças poéticas.

19
Jun19

Às vezes, no meu silêncio (2014-11-12)


canetadapoesia

 

 

Quantas vezes, sem que o queira,

mesmo sem motivos aparentes,

quebro o meu silêncio, com outros silêncios,

que me assaltam e me tomam o meu.

Às vezes, no meu silêncio,

soltam-se-me as lágrimas,

correm livres e sulcam-me a face,

na sua profusão atraem soluços,

e os olhos marejados de salgadas gotas,

como o mar deste País,

esvaem-se em gotículas de silêncios.

Às vezes, no meu silêncio,

resumo o mundo ao bater do meu coração,

sinto-o trovejar e bramar dentro do peito,

só as lágrimas o aquietam.

Às vezes, no meu silêncio,

sinto todo o ruído que um silêncio pode suportar,

e não ouço qualquer barulho para além dele.

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