Domingo, 28 de Fevereiro de 2021

Já não há montras livres

 

 

Em cada uma um corpo, inerte a esta hora da noite,

em cada uma um recanto, onde se abrigam,

e em todas elas uma luz que lhes ilumina a noite,

uma protecção frágil que os abriga,

sem que seja uma segurança de abrigo.

É só um resguardo da noite embrulhada nas estrelas que,

do alto do seu distanciamento,

tudo vêem, tudo apreciam, de nada gostam,

mas iluminam os corpos tristes que na sua protecção se abrigam.

E não há mais montras vagas, todas estão ocupadas,

e nós estamos também, ocupados, cabisbaixos,

nada vemos do que se passa ao nosso redor,

mesmo quando por azar, roçamos tão de perto

que não só lhes sentimos a respiração,

como testemunhamos a sua profunda miséria.

Estamos tão preocupados em sobreviver

que não reparamos que outros já se preocuparam também.

E por isso, tantas montras ocupadas,

tão poucas vagas entre elas.


publicado por canetadapoesia às 22:53
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Sábado, 27 de Fevereiro de 2021

Passam por mim (2013)

 

 

Passam lestos por mim

a caminho de não sei onde,

correm a vida nos pés que se arrastam

sem apreciarem a paisagem.

 

Passam lentos por mim,

mãos descontraídas,

devagar, sem destino,

que a vida fez-se para se apreciar,

olham, suspendem a passada

e num voltar de cabeça,

abarcam todo um mundo que os rodeia.

 

Passam lestos ou passam lentos,

mas passam por mim, no Rossio.


publicado por canetadapoesia às 23:50
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Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2021

Nuvens

 

 

Esbranquiçavam-se ao longe,

clareava o dia e os raios solares,

fortes, possantes e quentes,

sentiam-se impotentes,

eram demasiadas nuvens,

apesar das tentativas,

não conseguiam mais que

clarear o dia e esbranquiçar as nuvens.

Caía sobre nós o cinzento-celeste,

e com ele a tristeza da falta do rei sol.


publicado por canetadapoesia às 21:45
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Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2021

Vem noite e cobre-me (2013)

 

 

Vem noite e cobre-me,

deixa livre só um espacinho,

para que através dele veja a lua,

dissipe o olhar nas estrelas

e adormeça em sonhos

que, se se realizarem,

trarão a felicidade a tantos.

Vem noite e cobre-me,

para que eu adormeça em teus braços,

para que me sinta protegido,

pelo teu escuro que assusta,

mas protege também.

Vem noite e cobre-me,

dá-me descanso e repouso,

traz-me o sol,

que me aqueça o dia que aí vem.


publicado por canetadapoesia às 23:08
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Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2021

Ainda menino e já a despontar

 

 

Um dia surgiu de repente,

caiu-me em cima sem contar,

e embora soubesse que me esperava,

não queria sequer pensar,

que naquele dia tinha de ser,

já não podia esgueirar-me para o lado,

não podia fugir, não podia esconder-me,

quisesse ou não, gostasse ou não,

estava irremediavelmente preso à teia,

que me impunham patrioticamente,

que me queimaria quatro anos de vida auspiciosa.

Tinha de “dar o nome”,

como se não soubessem onde me encontrar,

como se não soubessem de cor o meu nome,

como se achassem que era voluntariamente que o faria,

e naquela idade de menino a despontar,

com as hormonas a indiciar outras festas, outros agrupamentos,

caiu-me em cima com a força que uma Nação possui,

a obrigação de cumprir com o que ela determinava.

Relembro a fome, o frio, o esforço titânico,

para um menino naquela idade,

que de repente se vê manietado num horizonte fechado,

restrito e militarmente organizado,

forçadamente ensinado, treinado e preparado

para à vida retirar vidas, para à morte fornecer candidatos,

um menino armado e treinado na pior das guerras,

sem ver os adversários, em que não se podia ter piedade.

Quatro anos de vida que agora tanta falta fazem,

que agora tão espezinhados são,

porque não vejo respeito nem honra,

em quem molesta de forma agressiva e sistemática,

quem pela Pátria deu a vida

para que outros a vissem de outra forma,

sem ter que lhe dar nada,

voluntária e obrigatoriamente, como era de costume,

ignorantes de uma vida que nos levou parte dela,

e agora, querem levar o resto, sem nada dar.

Ainda menino e já a despontar, com as hormonas a aquecer,

já de idade e com as hormonas a explodir, sem piedade.


publicado por canetadapoesia às 22:52
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Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2021

Passa por mim veloz  (2013)

 

 

Sinto que passa, por mim também,

a que velocidade!

Quando me olho ao espelho,

e no canto dos olhos reconheço a idade,

que apesar de ser de calendário,

nada representa do espírito,

mas está lá, bem à vista.

E a cabeleira farta,

orgulho de outrora,

continua farta, mas,

passando-lhe a mão se nota que aqui e ali,

vão desmaiando alguns traços,

quase todos brancos,

cativador de olhares de admiração,

da vaidade de então.

Os anos passam e eu estou muito mais velho,

mais maduro não sei, ignoro essas coisas,

penso mesmo que estou a regressar à meninice,

porque não olho o mundo com as preocupações,

de outras alturas da vida.

Sinais de que estou melhor como pessoa,

que mudei para o mundo e os que me rodeiam,

que tenho de agradecer o milagre a quem mo tem proporcionado,

especialmente a quem me seguirá, os meus filhos,

sobretudo a quem nunca esquecerei, as minhas netas,

meninas agora, mulheres do futuro.


publicado por canetadapoesia às 22:34
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Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2021

A ventania triunfal (2013)

 

 

Apesar de sentir que o vento,

na brutalidade da sua força,

passava através das portas,

sentia-me seguro.

Uivava lá fora, aterrador,

mas cá dentro, o sossego imperava,

sobressaltos, de quando em vez,

quando ele acometia com mais rancor,

estanca aqui e ali, lá se ia concertando os estragos.

O que não se esperava de todo,

é que o próprio inquilino,

lhe escancarasse a porta,

e permitisse então,

a sua entrada triunfal.


publicado por canetadapoesia às 23:09
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Domingo, 21 de Fevereiro de 2021

De mãos dadas (2013)

 

 

Chegaram ao tempo em que as mãos se entrelaçaram,

de mãos dadas caminharam a vida,

saltaram os obstáculos que foram sendo criados à sua passagem,

nas planícies de calmaria se aquietaram

em momentos de puro êxtase do amor que,

de mãos dadas, planava sobre seus corações.

De mãos dadas seguiam

o caminho que procuravam traçar a cada passo,

com elas criaram as ferramentas

que na vida os haviam de guiar.

No fim, foi de mãos dadas que trocaram os olhares,

que ao fecharem-se, se entrelaçaram

com as mãos dadas em vida.


publicado por canetadapoesia às 21:23
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Sábado, 20 de Fevereiro de 2021

Apreciavam o pôr do sol (2013)

 

 

Chegava ao fim mais um dia extenuante de

brincadeira e aventura que bastasse a um regimento,

mas éramos só três, cada um no seu galho,

nas mãos uma deliciosa, fresca e natural manga

acabadinha de descascar com os dentes,

chupa-se agora o caroço e,

ao mesmo tempo, descia no céu o sol

que se ia abrigar para a noite,

ia descansar do dia quente que tinha oferecido

a tantos meninos que da rua

faziam o seu campo de treino para a vida.

Deliciados com o colorido do rei das estrelas,

absorviam-se a vê-lo descer e lentamente adormecer,

nas mãos, sobre aqueles ramos de mangueira,

as mangas doces e maduras

que os sustentavam das canseiras do dia.


publicado por canetadapoesia às 21:48
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Sexta-feira, 19 de Fevereiro de 2021

Na tarde da poesia

 

 

Era uma tarde como tantas outras,

mas uma tarde diferente,

uma tarde sem sombras,

com sol, muito sol para encarar de frente.

 

Dentro do repleto salão, a magia,

gente em tamanha quantidade,

que ofuscava o brilho que fazia,

em ocasião tão cuidada.

 

Eram tantos e tão diversos,

novos, velhos e assim-assim,

comungando o prazer dos regressos,

celebrando e glorificando a poesia, sim!


publicado por canetadapoesia às 23:01
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