Quinta-feira, 18 de Fevereiro de 2021

Pitangas (2013)

 

 

Das pitangas lembro-me bem,

doces ou amargas, maduras ou pela metade,

e sinto saudades sim, de mastigar umas pitangas

e ao chão vermelho soltar os seus caroços

que sabia, por experiência colhida,

que dali, um caroço e aquela terra misturados,

nasceria outra planta, desenvolver-se-ia,

mais tarde, iria de novo saborear os seus frutos.

Hoje tenho outras pitangas,

também elas doces, dulcíssimas,

e por vezes um pouco de amargura,

só para ressaltar a sua doçura, também delas imana.

Não consigo olhá-las sem me lembrar das pitangas,

estas são as minhas mais adoradas pitangas,

aquelas que não mordo e que nem retiro o caroço,

mas doces como só a alma as reconhece,

também com um laivo de amargas, para completar o sabor,

mas as minhas pitangas adoradas.


publicado por canetadapoesia às 22:46
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Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2021

Da poesia, um dia (2013)

 

 

Um dia? Devia ser só um? Porque não dois ou três?

Melhor ainda, porque não todos os dias?

É que a poesia existe em nós que teimamos em escondê-la,

nós que a vivemos e sentimos bem dentro do coração

deixamos que esteja enterrada nos confins do intragável,

resistimos a mostrá-la,

a deixá-la calcorrear os caminhos do mundo,

por cinismo, por vergonha, por tristeza de vidas difíceis,

mas ela insiste, quer sair, dar-se a conhecer e, quem sabe,

alegrar alguns corações, derrubar os muros altos,

quer mostrar ao mundo que dentro de um coração triste,

também bate um segundo, bem mais alegre e optimista.

A poesia tem o seu dia, e é segundo o calendário,

mas para mim que já a deixo sair livremente e sem barreiras,

tem todos os dias que imparavelmente se seguem aos anteriores.

E escrevo-a como um vício, solto-a como um filho que,

ao longo do crescimento, ganhou asas e voou,

sofro, fico tenso, nem sequer durmo bem

quando um dia passa e nada deixo escapar deste coração

sedento de verter sobre brancas páginas, linhas seguidas

de letras desencontradas que só na poesia ganham sentido.

Escrevo, desenterro-me das profundezas do isolamento

quando no papel deixo cair umas gotas de tinta,

vejo a palavra formar-se e o poema surgir,

e nesse momento já não sou eu a escrever,

é a alma a derramar o sentimento aprisionado no peito que,

querendo ser poeta, melhorar o mundo e aprisionar outros quereres,

se deixa conhecer por aqueles que a vida caustica, mas,

no fundo precisam de poesia para se sentirem vivos e humanos.

Dela retiram o suco que à vida concede a visão do amor

que também nasce da poesia e com ela se desenvolve,

da serenidade que permite olhar o mundo de forma diferente e,

poeticamente, moldá-lo à imagem dos seus sonhos,

ainda que só em poemas aglomerados,

aqui deixo a poesia ensaiar os caminhos da esperança.


publicado por canetadapoesia às 22:12
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Terça-feira, 16 de Fevereiro de 2021

Metades de ti (2013)

 

 

Modelo-te o corpo nos meus prazeres sentidos,

desvendo-te em mim na força dos meus desejos,

repartes-te comigo em metades de ti

que ciosamente resguardas em teu peito,

e a que, generosamente me dás a saborear.

Sacio-me com a pujança da minha procura

e sobre a doçura da tua oferta,

deixo-me em ti,

recebendo-te em minha alma.


publicado por canetadapoesia às 22:04
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Segunda-feira, 15 de Fevereiro de 2021

Gotas de orvalho

 

 

Porque assim te vejo, serena,

dormitando no balanço que te embala,

olhos mortiços, pálpebras a cerrar-se,

um semblante de anjo na face exposto.

Adormeces à minha frente,

sorriu para ti, mas já não vês,

emociono-me só de ali estar.

Olhando o teu sono inocente,

verto a felicidade,

na forma de duas gotas do orvalho,

que me vai cobrindo os olhos e,

sobre uma Margarida são derramados.


publicado por canetadapoesia às 22:12
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Domingo, 14 de Fevereiro de 2021

Deixei-me flutuar (2013)

 

 

Deixei-me ir para além das vontades reprimidas,

saltando a represa das concepções castradoras,

deixei-me ir ao sabor dos teus sabores

nas ondas que me proporcionavas,

vagueando ao sabor das marés que subiam e desciam,

enchendo as praias de meus sonhos.

Deixei-me marinar sobre teus ais,

e das nuvens em que me encontrava

desci à terra prometida,

no teu paraíso me deixei flutuar.


publicado por canetadapoesia às 22:12
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Sábado, 13 de Fevereiro de 2021

Às “mijinhas”

 

 

Foram chegando às “mijinhas”,

sem pressas, descontraídos,

abriam a porta, pediam licença,

entravam e sentavam-se,

silenciosamente, sem perturbações.

Aqui e ali um sussurro,

Baixinho, quase inaudível,

queriam saber onde já iam as matérias,

questionavam o colega do lado,

logo se aplicavam em apontar, em escutar,

tentando não perder o resto da lição.

São jovens, são alunos, são pessoas em busca do futuro.


publicado por canetadapoesia às 22:42
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Sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2021

Sair da problemática (2013)

 

 

Há prazeres inusitados que por o serem,

mais nos agradam.

Entrar na aula e deparar com alunos que conseguiram

sair da problemática em que suas vidas tombavam,

seguiram em frente, ultrapassaram barreiras, subiram a pulso, diria.

Agora na universidade,

logo que me vêem entrar na sala, saúdam-me com carinho,

eu sorridente, satisfeito por eles,

sorrio interiormente, porque da minha parte,

garanto que me esforcei e afinal foi tão pouco o que fiz.

Bastou-me compreensão, entendimento e um pouco de carinho,

eles perceberam que ali, não estava um professor, estava um amigo,

eles, que saíram da problemática, ali estão, na universidade.

O nosso ego satisfaz-se com tão pouco como isto,

a ajuda, a compreensão e o bem que se faz a quem precisa,

o bem que nos faz saber que sem grandes parangonas

podemos estar na origem de uma mudança,

pequena, talvez, mas que tanto significa

para eles que saíram da problemática de uma vida sem rumo,

para nós, cujo dedo apontou e incentivou outros rumos.


publicado por canetadapoesia às 21:07
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Quinta-feira, 11 de Fevereiro de 2021

Fazes-me lembrar (2013)

 

 

Sabes-me a amargo nesta manhã submersa,

sem açúcar, como de hábito,

mas hoje estás amargo,

resultado, talvez, da boca ainda doce do jantar de ontem,

ou até, quem sabe, muitas vezes acontece,

da forma como te tiraram,

nem sempre bem, muitas vezes queimado,

mas assim amargo? Com este sabor que desagrada?

É mesmo muito raro acontecer e,

faz-me recordar a vida,

faz-me lembrar os amargos que ela nos traz,

escondendo-nos os prazeres de bons momentos,

os prazeres de um café quente e forte pela manhã.


publicado por canetadapoesia às 21:58
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Quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2021

O canto

 

 

Deste voltas ao quarteirão,

dobraste as esquinas dos edifícios

como dobras as da vida.

Não satisfeito ainda,

correste a estrada e dobraste outras,

até achares a que te parecia ideal.

Um canto, um canto somente,

mas abrigado dos ventos e das intempéries,

tanto quanto era possível e debaixo do luar que te cobria,

estendeste o papelão, a tua cama portátil.

No canto te deitaste, esticaste as pernas,

pela constante caminhada do dia,

sempre em busca de algo, para comer.

Fixaste o céu, olhaste as estrelas

envergonhadas, também elas baixaram os olhos,

e por momentos deixaram de brilhar no céu,

voltaram para ti os seus pensamentos,

já que os humanos te ignoram como igual.


publicado por canetadapoesia às 23:21
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Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2021

Nos teus olhos (2013)

 

 

Nos teus olhos uma imensa tristeza,

pela dureza de uma vida que não tinha de ser assim.

Nos teus olhos uma imensa nostalgia,

pelo sonho de Abril que te vêem roubando.

Nos teus olhos.

Nos teus olhos a frustração,

porque acreditaste ser possível ter dignidade.

Nos teus olhos a desilusão,

porque te tiraram o sonho que sonhaste ser possível.

Nos teus olhos eu vejo os meus,

e neles se reflectem milhões de outros.

Nos teus olhos.


publicado por canetadapoesia às 23:11
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