Segunda-feira, 19 de Abril de 2021

Exuberante (2013)

 

 

Podia admirar-se o conjunto,

era agradável à vista,

dir-se-ia mesmo que

era exuberante,

na postura, na forma das formas,

na estrutura que as suportava,

em cada balanço,

um passo à frente ou um passo atrás,

sentia-se que tudo poderia desabar.

Na verdade, era só uma primeira impressão,

porque quando os olhos se depositavam,

naquele ser exuberante,

e lhe percorriam a estrutura,

em busca de falha que propiciasse a queda,

logo se esbugalhavam de admiração,

porque ali, nada caía, nada tombava,

tudo estava no seu lugar,

fixamente agarrado à estrutura exuberante.


publicado por canetadapoesia às 23:07
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Domingo, 18 de Abril de 2021

Nas fortes árvores (2013)

 

 

Bate de mansinho, vai correndo entre os ramos,

aumenta a pressão e já se notam as copas,

outrora frondosas e orgulhosas da sua distância à terra,

abanarem, estremecerem pela imensa robustez

que cresce e se afunila em sua direcção.

Um vendaval assim é agora forte, irresistível,

devastador e demolidor, nada escapa à sua passagem e aumenta,

cresce a força com que fustiga os ramos incautos,

que de tanta vaidade se deixaram enredar por ele,

sem se precaverem, são quebrados, espalhados por aí.

Na sua fúria, o vento tudo leva à sua frente,

porque deixou de encontrar resistência,

porque se afunilou como um só,

na direcção correcta em que o impacto é maior,

destrói, derruba e cria também,

espalhando as sementes de uma nova colheita,

que se espera mais segura, menos vaidosa e,

sobretudo, não tão longe da terra.


publicado por canetadapoesia às 21:51
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Sábado, 17 de Abril de 2021

Gente (2013)

 

 

Gente aos montes,

gente aos molhos,

gente sedenta da cultura que é vida,

gente para quem o pouco oferecido é muito,

gente e mais gente,

muita gente,

gente à procura da música,

gente que gosta de ouvir,

gente que gosta de se cultivar,

gente que devia ser educada,

gente que devia respeitar o básico que a vida impõe.


publicado por canetadapoesia às 21:44
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Sexta-feira, 16 de Abril de 2021

Passageiros do tempo (2013)

 

 

Somos o que somos e nada mais,

passamos pelo espaço que o tempo nos concede.

Somos passageiros do universo,

temos tempo limitado de ocupação

deste espaço que nos concede tempo.

Estamos de passagem.

O cronómetro está ligado marcando o tempo

desde o dia em que pela vez primeira ocupámos espaço e,

em passageiros do tempo nos transformámos.

Pára o cronómetro, e o tempo que nos deu tempo

para ocuparmos o espaço que no universo nos reservou,

reclama-o agora, por falta de espaço,

para dar tempo a outros tempos.


publicado por canetadapoesia às 22:50
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Quinta-feira, 15 de Abril de 2021

Cheiro a rua (2013)

 

 

Não era como as outras,

modernas arejadas e largas,

cheias de luz e candeeiros altos,

não, esta rua era uma rua com cheiro a rua.

Claro que o trânsito fluía nos dois sentidos,

mas o piso era empedrado com cubos de granito,

ao longo dela corriam carris,

do que tinha sido uma inovação, os carros eléctricos,

existiram muito antes da febre dos automóveis que os imitariam,

nesses carris ainda circulavam os velhinhos eléctricos,

a par de outros de construção recente, mais equipados,

com vidros fumados e ar condicionado.

Circulavam nos mesmos carris sem se incomodarem com o feito,

lamentando que a cegueira do homem tivesse relegado

para um plano de desperdício tantos dos seus irmãos,

aquilo que era uma mais-valia de tempos remotos,

jazia agora na sucata e clamava-se mobilidade eléctrica.

Mas a rua tinha mais, prédios vetustos, recuperados e bem tratados,

e na mercearia que ainda lá estava, o sr. Manuel,

amiúde conversava com o sr. Joaquim, o do talho,

até na drogaria se discutiam os assuntos que aconteciam na padaria,

mas ao fim do dia acontecia o melhor,

reuniam-se à volta de uma mesa no café da rua,

antes de se recolherem ao descanso de suas casas

para pôr em ordem os assuntos do dia.

Não, aquela não era uma rua como as outras,

era uma rua especial e que vinha de longe,

sobretudo era uma rua com cheiro a rua,

as pessoas que nela viviam e sentiam o seu cheiro,

sabiam que eram pessoas consideradas,

seres humanos com defeitos e virtudes,

mas não eram números com toda a certeza.


publicado por canetadapoesia às 22:58
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Quarta-feira, 14 de Abril de 2021

Agrada-me

 

 

Quando me aparece naquela nesga de céu,

caindo directamente sobre mim,

aquecendo-me e recolhendo-me

à sombra protectora das árvores que me envolvem.

Agrada-me este tempo em que o calor se mistura com a sombra

e aquece o corpo, arrefecendo a mente,

desta cadeira onde me contemplo,

olhando o céu que se desfaz na terra

com a dolência que o corpo me pede,

deleito-me na recepção ao sol que me encobre.


publicado por canetadapoesia às 22:43
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Terça-feira, 13 de Abril de 2021

Razões de vida (2013)

 

 

Porque bates no meu peito,

coração selvagem, domesticado,

se não for por uma forte razão

que está presente em minha alma,

sem essa razão, porque havias de bater.

Bates e aceleras sempre que estás perto

do que mais admiro e amo,

as princesas que me alegram a vida,

que me marejam e embaciam os olhos

sempre que nelas os deposito

e que o coração se aperta de ternura,

por momentos de suprema felicidade.

Bates e bates mais forte,

e sentes o que sinto quando bates,

porque a razão está ali, bem à frente dos olhos,

bem perto de ti e da alma que as ama.


publicado por canetadapoesia às 22:46
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Segunda-feira, 12 de Abril de 2021

Saudades (2013)

 

 

Tenho tantas, de tantas coisas,

passageiras em alguns momentos,

mas palavra pesada pelo que traz consigo,

saudades eu sinto de coisas passadas,

dos tempos idos sem retorno,

mas saudades, saudades a sério,

daquelas que não nos largam a mente,

que nos apertam o coração,

nos inundam os olhos,

põem a alma a latejar,

dessas só tenho uma, imensa,

tão grande e inesquecível,

que uma vida não abarca em anos passados,

saudades de quem me deu a vida,

saudades intermináveis de meu pai.


publicado por canetadapoesia às 21:19
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Domingo, 11 de Abril de 2021

Nada de nada (2013)

 

 

Não tenho nada de meu,

nada tenho em meu nome, nada que me faça proprietário,

excepto a alma que é livre e não tem dono,

vive-me no peito e embeleza-me a vida.

Nada tenho de meu,

excepto a vontade de amar quem quero amar,

gostar de quem gosto e ser amigo dos amigos.

Nada tenho em meu nome,

nada possuo de meu nem tenho posse de coisas,

excepto o corpo que me alberga enquanto alma,

circula por aí sem dono, sem freio,

só amor, só prazer de viver e amar,

princesas e rainhas, num conjunto harmonioso,

que vive no meu coração e para além disso,

não tenho nada de nada, nem bens nem posses.

Excepto, a vida que nem é minha, mas utilizo e

procuro fazê-lo no estrito cumprimento do prazer

que sinto em vivê-la rodeado dos meus amores.


publicado por canetadapoesia às 22:51
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Sábado, 10 de Abril de 2021

Atravessei o oceano (2013)

 

 

Não, não queria, mas fui forçado,

pela força bruta da boçalidade

incapaz de entender as diferenças,

pela força bruta da inveja que se queria apossar

de tudo o que de bom existia, sem olhar a meios e,

com as inverosímeis ajudas, de quem trai sem ter consciência.

Atravessei o oceano, vim de avião,

deixei plantada nas costas de praias douradas

a infância de uma vida, a vida de um amor,

a terra dos meus sonhos ficou em terra,

e eu vim de avião, forçado e empurrado.

Pelo esquecimento a que me impus,

larguei as areias grossas onde as ondas adormeciam,

abraçadas à terra que foi sonho de meninos

que outra não conheciam e que, forçados cresceram lá longe,

fora dos seus terreiros de brincadeira,

sem os amigos que ainda hoje, apesar de tudo,

continuam a morar no coração que quer esquecer e não consegue.


publicado por canetadapoesia às 21:44
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