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Caneta Da Poesia

Caneta Da Poesia

23
Jul16

Entre sóis, a felicidade (2016-07-22)


canetadapoesia

 

 

Sem que fosse forçado, de vez em quando,

vinham-lhe à memória episódios passados

quase esquecidos e remetidos para o escuro de um sótão.

Sentia ainda os primeiros raios solares,

do alto do seu 12º andar,

espraiando o olhar sobre a cidade,

apreciando o movimento do início do dia.

À noitinha era deleitar-se com o sol,

deitando-se guloso sobre aquele corpo que,

ora calmo ora alterado por prazeres mil,

se revolvia debaixo do seu peso

recebendo-o no seu seio para uma noite de descanso

e de cada encontro, entre amarelos e avermelhados,

o céu recebia espantado as cores vivas desse embate de titãs.

Eram os dois momentos mágicos do dia,

o amanhecer e o anoitecer,

donos de uma experiência única,

só possível a quem tinha África no coração.

Com os tempos em acelerada mutação,

ainda que as janelas e paredes fossem violadas

por inúmeros orifícios de tracejantes balas

e a vozearia ofensiva aumentasse,

continuava a sonhar na sua varanda e via

o nascimento e o ocaso diário do astro rei e,

o radioso nascer de uma Nação virada ao mundo.

Um dia deixou de ir à varanda,

não mais se preocupou com o nascer ou deitar

de um sol que já não lhe dava o prazer de outrora,

sentia que tudo se tinha tornado cinzento,

a luz da cidade que amava foi-se esbatendo

e desse intenso nevoeiro caído sabe-se lá de onde,

que nem friorento dia de “cacimbo”,

surgiu o ódio, a soberba, a vingança, o irracional.

Nesse dia tão negro como tantos que o seguiram

por anos que os dedos já não serviam de ábaco,

morreu-lhe a esperança de vez,

abandonou a varanda e os elementos que a adornavam,

meteu apressadamente na mala o que lhe restava,

três camisas, dois pares de calças e os documentos identificativos,

rumou ao mundo, a outro mundo que não o seu,

perdeu-se de esquecimentos pela terra que o viu ser homem.

Numa noite iluminada pelo ecoar da metralha,

subiu as escadas de um avião sem olhar para trás,

sentou-se onde o determinaram e fechou os olhos,

abriu-os horas depois, num outro universo que não conhecia,

aquele que nunca quis conhecer, mas que agora ali estava,

frio, chuvoso e ameaçador para quem vivia com o sol.

Antes mesmo de poisar um pé sobre essa terra desconhecida,

que ora o recebia no seu abraço traiçoeiro,

por entre os pongos da chuva que o encharcavam,

deixou cair duas lágrimas que inundaram a cidade,

esgotou o coração e da alma retirou a felicidade.

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