Domingo, 12 de Fevereiro de 2017

Metralhadora (2013)

 

 

Sempre que a via, emocionava-me,

era uma máquina infernal,

disparava em todos os sentidos,

e a mortandade era geral.

Bastava para tanto que se carrega-se num botão,

como agora se diz, porque na época o nome era outro,

chamava-se-lhe simplesmente tecla,

e dessas teclas se disparavam as mais diversas munições.

Quando se sentava defronte dela já estava preparado,

para dar início à guerra, fratricida, total, se necessário fosse,

e punha-se a pressioná-las de tal forma, que nada ficava ao acaso,

chegava mesmo a ser violento com elas

na ânsia de atingir os seus alvos.

Uma máquina de escrever, portátil, pois então,

já havia destas coisas,

do seu metralhar de um compasso assustador, firme,

saíam textos de quem sabia escrever, em português, já se vê,

sem acordos ortográficos, que isso são modernices,

para nos fazer esquecer as belezas desta língua universal,

de tal forma certeiros, tão acutilantes que foi, finalmente,

decretado o seu fim, exterminada sem dó nem piedade,

substituída pela ortografia das novas linguagens digitais.

Uma máquina terrível, mais mortífera que qualquer outra,

que de guerra se denomina e apresenta,

mas indissociável da evolução humana,

uma arma de arremesso de quem sabia escrever e pensar,

temida por todos os arautos da incongruência,

os pavoneadores da palavra fácil e mentirosa.

Era aquilo que diferenciava o ser humano pensante,

do que seria o animal cavernoso da obscuridade,

uma arma mortal para quem usava do ardil,

para adormecer as mentes que se recusavam a ceder,

por isso tinha um nome adequado à sua função,

e por isso era terrível e se chamava simplesmente,

Máquina de Escrever.

E que bem escrevia, como nos enchia o coração,

quando ouvíamos o seu matraquear,

e a alma completava a satisfação, repleta de prazer.

Uma Máquina de Escrever.


publicado por canetadapoesia às 21:12
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